PensamentoO fenômeno da fotografia do pensamento se ligando ao das criações fluídicas, descrito em nosso livro da Gênese, no capítulo dos fluidos, para maior clareza reproduzimos a passagem desse capítulo, onde esse assunto é tratado, e o completamos com novas observações.
Os fluidos espirituais, que constituem, propriamente falando, um dos estados do fluido cósmico, são a atmosfera dos seres espirituais; é o elemento onde eles haurem os materiais sobre os quais operam; é o meio onde se passam os fenômenos especiais perceptíveis à vista e ao ouvido do Espírito, e que escapam aos sentidos carnais impressionados somente pela matéria tangível, onde se forma essa luz particular ao mundo espiritual, diferente da luz comum por sua causa e seus efeitos; é, enfim, o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som.
Os Espíritos agindo sobre os fluidos espirituais, não os manipulam como os homens manipulam os gases, mas com a ajuda do pensamento e da vontade, O pensamento e a vontade são para os Espíritos o que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem a esses fluidos tal ou tal direção; aglomeram-nos, combinam-nos ou os dispersam; com eles formam conjuntos tendo uma aparência, uma forma, uma cor determinada; mudando-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou outros corpos, os combinam segundo certas leis; é a grande oficina ou o laboratório da vida espiritual.
Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção; freqüentemente, são o produto de um pensamento inconsciente; basta ao Espírito pensar numa coisa para que essa coisa se produza, como basta modular uma ária para que essa ária repercuta na atmosfera.
É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à vista de um encarnado dotado da visão psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo, na época em que foi conhecido, tivesse tido várias encarnações depois. Ele se apresenta com a roupa, os sinais exteriores, -enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc., que tinha então; um decapitado se apresentará com a cabeça a menos. Não é dizer que ele conserva essas aparências; não, certamente; porque como Espírito ele não é nem coxo, nem maneta, nem caolho, nem decapitado, mas seu pensamentos e reportando à época em que era assim, seu perispírito lhe toma instantaneamente as aparências, que deixa do mesmo modo instantaneamente, desde que seu pensamento deixa de agir. Se, pois, foi uma vez negro, outra vez branco, ele se apresentará como negro ou como branco, segundo a dessas duas encarnações sob a qual for evocado, e onde se reportar o seu pensamento.
Por um efeito análogo, o pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos dos quais tinha o hábito de se servir: um avaro manejará o ouro; um militar terá as suas armas e o seu uniforme; um fumante, o seu cachimbo; um lavrador, a sua charrua e seus bois; uma velha, a sua roca para afiar. Esses objetos fluídicos são tão reais para o Espírito que é, ele mesmo, fluídico, quanto eram no estado material para o homem vivo; mas, pela mesma razão que são criados pelo pensamento, a sua existência é tão fugidia quanto o pensamento.
Sendo os fluidos o veículo do pensamento, eles nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer, em verdade, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.
Como se vê, é uma ordem de fatos toda nova que se passam fora do mundo tangível, e constituem, podendo-se assim dizer, a física e a química especiais do mundo invisível. Mas como, durante a encarnação, o princípio espiritual está unido ao princípio material, disto resulta que certos fenômenos do mundo espiritual se produzem conjuntamente com os do mundo material, e são inexplicáveis para quem não lhes conhece as leis. O conhecimento dessas leis é, pois, tão útil aos encarnados quanto aos desencarnados, uma vez que só elas podem explicar certos fatos da vida material.
O pensamento, criando imagens fluídicas, se reflete no envoltório espiritual como numa vidraça, ou ainda como essas imagens de objetos terrestres que se refletem nos vapores de ar; ela ali toma um corpo e se fotografa de alguma sorte. Que um homemtenha, por exemplo, a idéia de matar um outro, por impassível que seja seu corpo material, seu corpo fluídico é posto em ação pelo pensamento do qual reproduz todas as nuanças; ele executa fluidicamente o gesto, o ato que tem o desejo de realizar; seu pensamento cria a imagem da vítima, e a cena inteira se pinta, como num quadro, tal qual ela está em seu espírito.
É assim que os movimentos mais secretos da alma repercutem no envoltório fluídico; que uma alma, encarnada ou desencarnada, pode ler numa outra como num livro, e ver o que não é perceptível pelos olhos do corpo. Os olhos do corpo vêem as impressões interiores que se refletem sobre os indícios do rosto: a cólera, a alegria, a tristeza; mas a alma vê sobre os indícios da alma os pensamentos que não se traduzem ao redor.
No entanto, segundo a intenção, o vidente pode bem pressentir o cumprimento do ato que lhe será a conseqüência, mas não pode determinar o momento em que se cumprirá, nem lhe precisar os detalhes, nem mesmo afirmar que ocorrerá, porque circunstâncias ulteriores poderão modificar os planos decididos e mudar as disposições. Ele não pode ver o que não está ainda no pensamento; o que vê é a preocupação do momento, ou habitual, do indivíduo, seus desejos, seus projetos, suas intenções boas ou más; daí os erros nas previsões de certos videntes, quando um acontecimento está subordinado ao livre-arbítrio do homem; não podem senão pressentir-Ihe a probabilidade segundo o pensamento que vêem, mas não afirmar que ocorrerá de tal maneira e em tal momento. A maior ou a menor exatidão nas previsões, depende, além disso, do alcance e da clareza da visão psíquica; em certos indivíduos, Espíritos ou encarnados, ela é difusa ou limitada a um ponto, ao passo que, em outros, ela é limpa, e abarca o conjunto dos pensamentos e da vontade, devendo concorrer para a realização de um fato; mas, acima de tudo, há sempre a vontade superior que pode, em sua sabedoria, permitir uma revelação ou impedi-la; neste caso, um véu impenetrável é lançado sobre a visão psíquica mais perspicaz. (Ver na Gênese, o cap. da Presciência.)
A teoria das criações fluídicas e, conseqüentemente, da fotografia do pensamento, é uma conquistado Espiritismo moderno, e pode ser, doravante, considerada como adquirida em princípio, salvo as aplicações de detalhes que são o resultado da observação. Esse fenômeno é, incontestavelmente. A fonte das visões fantásticas, e deve desempenhar um grande papel em certos sonhos.
Pensamos que nele se pode encontrar a explicação da mediunidade do copo com água. (Ver o art. precedente.) Desde que o objeto que se vê não está no copo, a água deve fazer o trabalho de uma vidraça que reflete a imagem criada pelo pensamento do Espírito. Esta imagem pode ser a reprodução de uma coisa real, como pode ser a de uma criação de fantasia. O copo com água não é, em todos os casos, senão um meio de
reproduzi-la, mas não é o único, assim como o prova a diversidade de procedimentos empregados por alguns videntes; este, talvez, convenha melhor para certas organizações.
Revista Espírita, junho de 1868 , Allan Kardec
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
domingo, 8 de fevereiro de 2009
ESTUDOS E PESQUISAS
Os espíritas em geral consideram que o caminho de continuidade do Espiritismo e dos próprios centros está nas atividades de estudos e pesquisas. Apesar disso elas ainda buscam seu lugar ao sol, pois faltam medidas objetivas. Neste capítulo estudo essas atividades e suas perspectivas.
A BASE DO CENTRO
Os estudos e as pesquisas são o sustentáculo do centro cujo modelo propus no capítulo 1. As diversas atividades
do centro são embasadas e orientadas por eles. As pessoas tomam contato com o Espiritismo, criam, desenvolvem e substituem atividades baseadas neles. No entanto, isso não tem sido verdade na grande maioria dos nossos centros reais, por razões culturais diversas.
Embora reconhecida como fundamental por dirigentes e freqüentadores de todas as casas, poucas vezes se encontra um centro espírita em que as atividades de estudos e pesquisas sejam colocadas como as mais importantes. Muitas vezes a necessidade salvadora de “praticar a caridade” (dar roupas e alimentos, dar passes, atender pessoas e espíritos) substitui o peso do conhecimento espírita, que daria certamente uma grande contribuição para libertar as pessoas de seus maiores problemas existenciais.
Allan KARDEC chegou a propor uma estrutura para as reuniões, baseado na experiência da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Nota-se a preocupação básica com estudos e pesquisas:
"Os trabalhos de cada sessão podem regular-se conforme se segue:
1a Leitura das comunicações espíritas recebidas na sessão anterior, depois de passadas a limpo.
2a Relatórios diversos. - Correspondência. - Leitura das comunicações obtidas fora das sessões. - Narrativa de fatos que interessem ao Espiritismo.
3a Matéria de estudo. - Ditados espontâneos. - Questões diversas e problemas morais propostos aos Espíritos. - Evocações.
4a Conferência.-Exame crítico e analítico das diversas comunicações. - Discussão sobre diferentes pontos da ciência espírita."(84)
A proposta de KARDEC sugere que:
(1) estudos e pesquisas são as atividades básicas da sociedade,
(2) o nosso principal objeto de estudo é a mediunidade,
(3) podemos utilizar as próprias comunicações obtidas na casa como instrumentos de aprendizado e pesquisa.
Para os grupos que não possuíssem médiuns, KARDEC propôs também que realizassem estudos diversos.(85)
Em relação à pesquisa, em particular, é necessário, antes de tudo uma desmistificação da palavra. Denomino pesquisa a todas as atividades do centro que envolvam um trabalho de elaboração humano.86 Assim sendo, a mais simples reunião mediúnica pode realizar pesquisa, bastando para isso que adote uma metodologia de trabalho e um conjunto de técnicas para aplicá-la, sempre na busca de conhecer algo mais.
O maior exemplo que tivemos neste sentido veio do próprio KARDEC. As diversas obras da codificação apresentam exemplos da postura de KARDEC em relação à pesquisa mediúnica. Para ele era muito clara a diferença entre o seu papel e dos espíritos: ele era o pesquisador, enquanto os espíritos, médiuns e fenômenos eram objetos de pesquisa.Cabia a ele planejar, conduzir e avaliar continuamente os resultados da pesquisa (este era o trabalho de elaboração humano, necessário em qualquer pesquisa).
A título de ilustração, escolho um caso relatado em O livro dos médiuns, que ilustram com muita clareza a sua
forma de trabalhar: numa pesquisa sobre o laboratório do mundo invisível, em que entrevista o espírito São Luís, KARDEC conduz passo a passo a discussão e não se submete com facilidade às explicações dadas pelo espírito para a aparição de objetos. KARDEC considerava, antes da argüição, que essas aparições se explicavam pela existência de um duplo etéreo no mundo invisível, da mesma forma que os homens são nele representados pelos espíritos. Quando São Luís dá uma explicação diferente, dizendo que os próprios
espíritos podem concentrar elementos da atmosfera e dar-lhes uma aparência, KARDEC ainda volta à questão, para obter uma confirmação de São Luís. Este chega a responder de forma lacônica: “Parece-me que a minha resposta precedente resolve a questão”, mas não há cons-trangimentos: tanto um quanto outro conhecia o seu próprio papel no jogo da busca de conhecimento.(87)
Este simples exemplo mostra que pesquisar depende mais de uma postura de observação e crítica do que de
títulos acadêmicos: na maioria dos grupos espíritas modernos uma manifestação de São Luís (ou de um espírito elevado qualquer) causaria tanta admiração que suas palavras seriam absorvidas sem qualquer análise ou questionamento.Por causa dessa postura não se evocam os espíritos, não se fazem perguntas objetivas sobre assuntos de interesse da ciência, não se registram, avaliam e divulgam os resultados.
Uma estrutura baseada em estudos e pesquisas traz problemas a serem enfrentados. O primeiro se refere à
necessidade de restrições à freqüência e à integração de novos participantes.88 São atividades que exigem intensa participação das pessoas, assiduidade e amadurecimento dos grupos de trabalho. Se pessoas novas e inexperientes entram e saem de um grupo continuamente, é muito difícil fazê-lo progredir e dar uma contribuição real. O processo de integração de novas pessoas necessita de critérios claros que envolvem seu conhecimento prévio de Espiritismo, seus vínculos com o centro e com o grupo de estudo, sua idade, seus interesses etc. O estabelecimento desses critérios só trarão realmente algum problema se forem mantidas as velhas idéias de grandeza do centro e da necessidade de conquistar freqüentadores a qualquer custo.
Os novos participantes se integram aos poucos e recebem recursos para se aperfeiçoarem e se prepararem para atividades mais elaboradas, através de cursos, palestras e seminários. Só não podemos cair na armadilha do catecismo, que estabelece passos rígidos e predeterminados para se atingir algum estágio. O centro espírita possui uma estrutura aberta ao crescimento e à participação. Há pessoas que com pouco tempo mostram-se preparadas para novos desafios: já leram vários livros, compreenderam os pontos fundamentais da doutrina e têm interesse pelo trabalho. Elas não podem ficar enterradas em cursos infindáveis antes de começar a contribuir.
Outro problema se refere à integração de crianças e jovens nas atividades, que numa estrutura moderna, deve ser a maior possível. As crianças e, em menor escala, os jovens, compartilham o mundo com uma visão diferenciada. São preocupações, interesses, formas de abordagem diferentes e que podem receber, por parte do centro espírita, espaço próprio para sua expansão. Qualquer que seja o campo de visão a contribuição do Espiritismo é muito grande, porque toca no que todos temos de mais profundo: nossa capacidade de ser, existir e crescer. É fundamental, no entanto, identificar os pontos comuns e as oportunidades de convivência para aprendizado conjunto. Através de sua participação em atividades integradas os jovens têm contribuído para que os estudos ganhem espaço nos centros. (89)
84 —. Das reuniões e das sociedades espíritas - Das sociedades propriamente ditas. Em: —. O livro dos médiuns. parte 2, cap. XXIX, item 346, p. 430-431.
85 Ibid., item 347, p. 431-432.
86 Allan KARDEC. Caracteres da revelação espírita. Em: Allan KARDEC. A gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, cap. I, itens 13-15, p. 15-16.
87 —. Do laboratório do mundo invisível. Em: —. O livro dos médiuns. cap. VIII. p. 156-165.
88 Jaci RÉGIS. O centro espírita no século XX. Em: CONGRESSO ESPÍRITA ESTADUAL DA USE, 7. Anais. p. 10.
89 Ibid., p. 11.
Centro Espírita: Uma revisão estrutural, Mauro de Mesquita Spinola
A BASE DO CENTRO
Os estudos e as pesquisas são o sustentáculo do centro cujo modelo propus no capítulo 1. As diversas atividades
do centro são embasadas e orientadas por eles. As pessoas tomam contato com o Espiritismo, criam, desenvolvem e substituem atividades baseadas neles. No entanto, isso não tem sido verdade na grande maioria dos nossos centros reais, por razões culturais diversas.
Embora reconhecida como fundamental por dirigentes e freqüentadores de todas as casas, poucas vezes se encontra um centro espírita em que as atividades de estudos e pesquisas sejam colocadas como as mais importantes. Muitas vezes a necessidade salvadora de “praticar a caridade” (dar roupas e alimentos, dar passes, atender pessoas e espíritos) substitui o peso do conhecimento espírita, que daria certamente uma grande contribuição para libertar as pessoas de seus maiores problemas existenciais.
Allan KARDEC chegou a propor uma estrutura para as reuniões, baseado na experiência da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Nota-se a preocupação básica com estudos e pesquisas:
"Os trabalhos de cada sessão podem regular-se conforme se segue:
1a Leitura das comunicações espíritas recebidas na sessão anterior, depois de passadas a limpo.
2a Relatórios diversos. - Correspondência. - Leitura das comunicações obtidas fora das sessões. - Narrativa de fatos que interessem ao Espiritismo.
3a Matéria de estudo. - Ditados espontâneos. - Questões diversas e problemas morais propostos aos Espíritos. - Evocações.
4a Conferência.-Exame crítico e analítico das diversas comunicações. - Discussão sobre diferentes pontos da ciência espírita."(84)
A proposta de KARDEC sugere que:
(1) estudos e pesquisas são as atividades básicas da sociedade,
(2) o nosso principal objeto de estudo é a mediunidade,
(3) podemos utilizar as próprias comunicações obtidas na casa como instrumentos de aprendizado e pesquisa.
Para os grupos que não possuíssem médiuns, KARDEC propôs também que realizassem estudos diversos.(85)
Em relação à pesquisa, em particular, é necessário, antes de tudo uma desmistificação da palavra. Denomino pesquisa a todas as atividades do centro que envolvam um trabalho de elaboração humano.86 Assim sendo, a mais simples reunião mediúnica pode realizar pesquisa, bastando para isso que adote uma metodologia de trabalho e um conjunto de técnicas para aplicá-la, sempre na busca de conhecer algo mais.
O maior exemplo que tivemos neste sentido veio do próprio KARDEC. As diversas obras da codificação apresentam exemplos da postura de KARDEC em relação à pesquisa mediúnica. Para ele era muito clara a diferença entre o seu papel e dos espíritos: ele era o pesquisador, enquanto os espíritos, médiuns e fenômenos eram objetos de pesquisa.Cabia a ele planejar, conduzir e avaliar continuamente os resultados da pesquisa (este era o trabalho de elaboração humano, necessário em qualquer pesquisa).
A título de ilustração, escolho um caso relatado em O livro dos médiuns, que ilustram com muita clareza a sua
forma de trabalhar: numa pesquisa sobre o laboratório do mundo invisível, em que entrevista o espírito São Luís, KARDEC conduz passo a passo a discussão e não se submete com facilidade às explicações dadas pelo espírito para a aparição de objetos. KARDEC considerava, antes da argüição, que essas aparições se explicavam pela existência de um duplo etéreo no mundo invisível, da mesma forma que os homens são nele representados pelos espíritos. Quando São Luís dá uma explicação diferente, dizendo que os próprios
espíritos podem concentrar elementos da atmosfera e dar-lhes uma aparência, KARDEC ainda volta à questão, para obter uma confirmação de São Luís. Este chega a responder de forma lacônica: “Parece-me que a minha resposta precedente resolve a questão”, mas não há cons-trangimentos: tanto um quanto outro conhecia o seu próprio papel no jogo da busca de conhecimento.(87)
Este simples exemplo mostra que pesquisar depende mais de uma postura de observação e crítica do que de
títulos acadêmicos: na maioria dos grupos espíritas modernos uma manifestação de São Luís (ou de um espírito elevado qualquer) causaria tanta admiração que suas palavras seriam absorvidas sem qualquer análise ou questionamento.Por causa dessa postura não se evocam os espíritos, não se fazem perguntas objetivas sobre assuntos de interesse da ciência, não se registram, avaliam e divulgam os resultados.
Uma estrutura baseada em estudos e pesquisas traz problemas a serem enfrentados. O primeiro se refere à
necessidade de restrições à freqüência e à integração de novos participantes.88 São atividades que exigem intensa participação das pessoas, assiduidade e amadurecimento dos grupos de trabalho. Se pessoas novas e inexperientes entram e saem de um grupo continuamente, é muito difícil fazê-lo progredir e dar uma contribuição real. O processo de integração de novas pessoas necessita de critérios claros que envolvem seu conhecimento prévio de Espiritismo, seus vínculos com o centro e com o grupo de estudo, sua idade, seus interesses etc. O estabelecimento desses critérios só trarão realmente algum problema se forem mantidas as velhas idéias de grandeza do centro e da necessidade de conquistar freqüentadores a qualquer custo.
Os novos participantes se integram aos poucos e recebem recursos para se aperfeiçoarem e se prepararem para atividades mais elaboradas, através de cursos, palestras e seminários. Só não podemos cair na armadilha do catecismo, que estabelece passos rígidos e predeterminados para se atingir algum estágio. O centro espírita possui uma estrutura aberta ao crescimento e à participação. Há pessoas que com pouco tempo mostram-se preparadas para novos desafios: já leram vários livros, compreenderam os pontos fundamentais da doutrina e têm interesse pelo trabalho. Elas não podem ficar enterradas em cursos infindáveis antes de começar a contribuir.
Outro problema se refere à integração de crianças e jovens nas atividades, que numa estrutura moderna, deve ser a maior possível. As crianças e, em menor escala, os jovens, compartilham o mundo com uma visão diferenciada. São preocupações, interesses, formas de abordagem diferentes e que podem receber, por parte do centro espírita, espaço próprio para sua expansão. Qualquer que seja o campo de visão a contribuição do Espiritismo é muito grande, porque toca no que todos temos de mais profundo: nossa capacidade de ser, existir e crescer. É fundamental, no entanto, identificar os pontos comuns e as oportunidades de convivência para aprendizado conjunto. Através de sua participação em atividades integradas os jovens têm contribuído para que os estudos ganhem espaço nos centros. (89)
84 —. Das reuniões e das sociedades espíritas - Das sociedades propriamente ditas. Em: —. O livro dos médiuns. parte 2, cap. XXIX, item 346, p. 430-431.
85 Ibid., item 347, p. 431-432.
86 Allan KARDEC. Caracteres da revelação espírita. Em: Allan KARDEC. A gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, cap. I, itens 13-15, p. 15-16.
87 —. Do laboratório do mundo invisível. Em: —. O livro dos médiuns. cap. VIII. p. 156-165.
88 Jaci RÉGIS. O centro espírita no século XX. Em: CONGRESSO ESPÍRITA ESTADUAL DA USE, 7. Anais. p. 10.
89 Ibid., p. 11.
Centro Espírita: Uma revisão estrutural, Mauro de Mesquita Spinola
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
EVENTOS DE RENOVAÇÃO
Temos hoje uma diversidade de tendências. Alguns grupos firmam-se no religiosismo, no mediunismo, no assistencialismo e na ignorância. Outros buscam caminhos de renovação. Mas não se pode dizer que esse movimento é novo.
Em vários momentos da história do movimento espírita brasileiro puderam ser identificadas ações renovadoras, voltadas para uma identificação maior dos grupos com o Espiritismo, conceitual e metodologicamente. Isoladas, essas ações não chegaram, na maioria das vezes, a deixar a sua marca, o que não significa que não cumpriram seu papel. Muitas vezes acabam contribuindo para a criação de focos de reconstrução e renovação que nascem à margem
da inércia geral. Uma avaliação fria conclui, no entanto, que poucas pessoas foram atingidas.
Entre as ações renovadoras cujo efeito atingiu ou tem atingido um número significativo de centros está a criação das editoras espíritas, como a da FEB, no Rio de Janeiro- RJ, e O Clarim, em Matão-SP. Considero que este foi o mais significativo conjunto de eventos para superação de nossas limitações doutrinárias.(42) As editoras espíritas se proliferaram e são hoje uma realidade. Servem, em geral, à divulgação da ideologia reinante, mas isso é apenas uma
conseqüência de sua forte ligação com o movimento. Com os livros, revistas e jornais existe um meio de transmissão, progresso.
Houve processos de renovação levados pelo movimento de unificação entre centros,(43) entre eles:
a) a divulgação das “Deliberações do Simpósio Centro- Sulino”, realizado em 1962, com uma abrangente caracterização funcional dos centros espíritas,
b) a proliferação do “COEM - Centro de Orientação e Educação Mediúnica”, um programa de estudo e sistematização da prática mediúnica elaborado pelo
Centro Espírita Luz Eterna, de Curitiba, PR, a partir de 1970,
c) a criação do “Estudo Sistematizado de Doutrina Espírita” pela Federação Espírita do Rio Grande do Sul e sua posterior divulgação nacional pela FEB,
d) a divulgação de documentos de orientação aos centros espíritas, pela USE - União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, como a “Carta aos
Centros Espíritas”, a partir de 1975, e o “Esquema de Atividades Doutrinárias de um Centro Espírita”, desde 1978,
e) a divulgação, pela FEB, dos documentos “A adequação do Centro Espírita para o melhor atendimento de suas finalidades”, a partir de 1977, e “Orientação ao Centro Espírita”,(44) desde 1980,
f) a campanha “Comece pelo Começo”, realizada pela USE a partir de 1975, para divulgação das obras de Allan KARDEC, e estendida depois, para todo o país.
A listagem desses eventos pode dar a impressão de que coube em todos esses momentos ao movimento de unificação e à sua direção a vanguarda da renovação. A verdade é que essas conquistas aparecem muitas vezes como concessões a propostas formuladas e defendidas à revelia dos dirigentes.
Diversos desses documentos, programas de cursos, cartas e orientações citados seriam hoje passíveis de revisão, mas representaram avanços na reaproximação dos grupos com o Espiritismo, mais marcantes até que alguns excelentes livros, artigos de jornais e revistas publicados que não tiveram espaço para divulgação.
A criação de grupos de pesquisas, vinculados ou não a centros espíritas, mostra que o movimento ainda busca novos caminhos.
42 Antonio Cesar Perri de CARVALHO. Mudanças estruturais dos centros e grupos
espíritas de Kardec aos nossos dias. Em: CONGRESSO ESPÍRITA ESTADUAL
DA USE, 7. Anais. p. 5.
43 Antonio Cesar Perri de CARVALHO. Mudanças estruturais dos centros e grupos espíritas de Kardec aos nossos dias. Em: CONGRESSO ESPÍRITA ESTADUAL DA USE, 7. Anais. p. 6. Éder FÁVARO e outros. A estrutura dos centros espíritas de Kardec aos nossos dias. Em: CONGRESSO ESPÍRITA ESTADUAL DA USE, 7. Anais. p. 11-14.
44 FEDERAÇÃO Espírita Brasileira. .
Orientação ao centro espírita, Mauro de Mesquita Spinola
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Marcha gradual do Espiritismo. Dissidências e entraves
27 DE ABRIL DE 1866
(Paris, em casa do sr. Leymarie, méd. sr. L...)
Caros condiscípulos, o que é verdadeiro deve ser; nada pode se opor à irradiação de uma verdade; às vezes, pode-se velá-la, torturá-la, fazer nela o que fazem os teredos nos diques holandeses; mas uma verdade não é edificada sobre estaca: ela corta o espaço; está no ar ambiente, e se pôde deslumbrar uma geração, há sempre encarnações novas, de recrutamentos da erraticidade que vêm trazer germes
fecundos, outros elementos, e que sabem atrair para eles todas as grandes coisas desconhecidas.
Não vos apresseis muito, amigos; muitos dentre vós gostariam de ir a vapor, e nesse tempo de eletricidade, correr como ela. Esqueceis as leis da Natureza, gostaríeis de ir mais depressa do que o tempo. Refleti, no entanto, o quanto Deus é sábio em tudo. Os elementos que constituem o vosso planeta sofreram uma longa e laboriosa criação; antes que pudésseis existir, foi necessário que tudo se constituísse segundo a aptidão de vossos órgãos. A matéria, os minerais, fundidos e refundidos, os gases, os vegetais, pouco a pouco
harmonizados e condensados, a fim de permitir a vossa eclosão sobre a Terra. É a eterna lei do trabalho que não cessou de reger os seres inorgânicos, como os seres inteligentes.
O Espiritismo não pode escapar a essa lei, à lei da criação.
Implantado sobre um solo ingrato, é preciso que haja suas más ervas, seus maus frutos. Mas também, cada dia se roçam, se arrancam, se cortam os maus ramos; o terreno se surriba insensivelmente, e quando o viajor, fatigado das lutas da vida, encontrar a abundância e a paz à sombra de um fresco oásis, virá estancar a sua sede, enxugar seus suores, nesse reino lenta e sabiamente preparado; ali o rei é Deus, esse dispensador generoso, esse igualitário judicioso, que sabe bem que o trajeto a seguir é doloroso, mas fecundo; penoso, mas necessário; o Espírito formado na escola do trabalho, dela sai mais forte e mais apto para as grandes coisas. Aos desfalecidos ele diz: coragem; e como esperança suprema, deixa entrever, mesmo aos mais ingratos, um ponto de atraso, ponto salutar, caminho demarcado pelas reencarnações.
Ride das vãs declamações: deixai falar os dissidentes, berrar aqueles que não podem se consolar por não serem os primeiros; todo esse pequeno ruído não impedirá o Espiritismo de fazer invariavelmente o seu caminho; é uma verdade, e, como um rio, toda verdade deve seguir o seu curso.
Obras Póstumas, Allan Kardec
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